segunda-feira, 23 de novembro de 2009

5- Mário Prado

Postado por Vanessa Paganotti às 14:23

Acordei assustada com o barulho do telefone. Olhei meu rádio-relógio que marcava 4:03 da manhã, eu havia chegado há apenas 3 horas. Fiquei imaginando o que tivera acontecido para alguém telefonar naquela hora inapropriada. Coisa boa não deveria ser, pois como dizem: Notícias ruins chegam rápido. Levantei, envolvida pelo lençol, e fui até o telefone na sala, onde minha mãe já havia chegado. Olhei para ela com expressão de alguém curioso, mas o olhar dela me ignorou e ela nada mais respondia ao telefone do que "Ok", "Estaremos esperando", e "Obrigada por avisar" com uma voz seca, ou diria assustada. Nessa hora eu tinha certeza do que era, só uma única pessoa deixava minha mãe daquele jeito: meu pai. Depois da separação que foi há 3 anos, que até hoje não sei bem o motivo - acho que nem eles mesmos sabem -, acho que minha mãe nunca o esqueceu de verdade. Como meu pai viajou a trabalho depois do ocorrido, minha mãe sempre encarou bem quando todos a perguntavam sobre o assunto. Mas com a presença dele aqui era diferente.

Ao colocar o telefone no gancho, perguntei quem era. Ela sacudiu a cabeça como se quisesse que os pensamentos saíssem e respondeu: “Mário Prado”. Não sei porque ela insistia em chamá-lo assim. Pode ser que seja para mostrar para mim que eles não têm mais intimidade, ou para ela mesma. E não, minha mãe não continuou com o sobrenome Prado após a separação. Por uma incrível coincidência eles possuem o mesmo sobrenome sem nenhum parentesco. Melhor para mim, pois não gostaria com um nome gigante cheio de sobrenomes. Ela continuou: “Disse que vem te ver hoje, pois tirou férias depois de 3 anos trabalhando direto. Ele chega às 10 da manhã, e pediu para esperarmos aqui mesmo, sem necessidade de ir ao aeroporto. Então, não precisará ir para escola hoje, volte a dormir”. Eu estava tão surpresa quanto minha mãe, meu pai nunca havia tirado férias depois que saiu de casa. Às vezes telefonava a cada semana, mandava e-mails, mas certamente nunca se esqueceu de mim. Espero que de minha mãe também não.

Ela não falou mais nada. Acho que essa visita surpresa de meu pai realmente mexera com ela. Ela não percebeu, mas enquanto eu subia lentamente as escadas de casa, eu a observava. Sentada no sofá, paralisada. Eu certamente gostaria de saber o que se passava nos pensamentos de minha mãe naquele momento e poder confortá-la de alguma forma, mas eu não sabia o que falar. Resolvi então que ficaria em silêncio mas, desci as escadas novamente, fui até ela e a abracei. Nenhuma palavra, mas acho que naquele momento nos duas conseguimos nos entender mais do que nunca. Uma lágrima caiu dos meus olhos sem perceber, resolvi que então, naquele momentos certas palavras cairiam bem. Então eu disse “Eu te amo mãe.” e simplesmente corri para cima, sem esperar resposta.

Voltei a dormir. Naquele sono, tive um sonho com uma festa. Não me lembro muito bem onde era ou quem estava, mas lembro que era um lugar lindo, e sim, eu estava toda arrumada. Ao fundo tocava minha mais nova música favorita. “She will be loved” tocava lentamente, aliás, parecia que tudo estava em câmera lenta. Eu estava com uma carta de amor na mão, como se esperasse quem a havia escrito, mas eu esperava em vão porque ninguém aparecera.

De repente ouço alguém me chamando: “Mônica? Mônica? Acorde querida, já são 9 horas da manhã e logo seu pai chegará. Você quer mesmo que ele te veja com rosto sonolento e hálito ruim depois de todo esse tempo?”

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